segunda-feira, 30 de junho de 2014

Viva o SUS

Para quem queria hospitais padrão FIFA eis que mais um novo hospital é inaugurado no país, este na Região dos Lagos no Rio de Janeiro. Mas problema da assistência à saúde no Brasil não foi gerado pela Copa, é muito antigo e vai se perpetuar enquanto a sociedade não fizer uma abordagem correta ao real problema. O modelo que se perpetua na gestão de saúde a décadas tem diversas falhas e contribui para a proteção de mercado pela classe médica e a inacessibilidade direta aos serviços pela população.

O primeiro sustentáculo para que o caos se instalasse, a defesa de classe, se deu em três partes: na primeira, a ação incisiva dos conselhos de medicina quanto à abertura de novos cursos, na segunda, através da manutenção dos valores abusivos nas mensalidades dos cursos já autorizados como forma de manter a medicina prioritariamente entre os mais abastados, na terceira, o fechamento do mercado nacional a profissionais brasileiros ou estrangeiros formados no exterior, algo que até a implantação o programa Mais Médicos, era obtido com os exames de revalidação de diploma aos quais mesmo estudantes formados no Brasil não obtiveram êxito quando testados. Estas práticas garantiram a estes profissionais um patamar salarial em disparidade com qualquer outra classe no País e impacta diretamente no financiamento do SUS visto que representam a maior parte do custeio de qualquer instituição de assistência, seja publica ou privada.

O outro braço do esquema é a exploração da necessidade do paciente versus a aplicação de uma tabela de procedimentos financeiramente inacessível. Com um sistema público deficitário em especialistas e poucos atendimentos, todos os que têm um poder aquisitivo acima da faixa de pobreza são automaticamente empurrados para o cartel dos planos de saúde. Cobrando muito e oferecendo muito pouco os planos de saúde tornaram-se a miragem de um oásis no deserto e apesar de médicos vez ou outra reclamarem do valor que recebem dos planos por procedimento, “chorando miséria”, a relação é benefício mutuo. Sem que os “doutores” tenham que levantar um único dedo os planos “passam a sacolinha” mensalmente, quer haja uso por parte dos pacientes ou não, podendo assim arcar tranquilamente consultas e exames, mesmo com a cobrança de 20 a 100 mil reais em procedimentos cirúrgicos e diagnósticos de maior complexidade, afortunando os médicos e sem reduzir uma vírgula nas suas margens de lucro.

Dito isto, podemos observar que direcionar o foco da discussão para a suposta ausência de estruturas de saúde é a forma destes de pautar o debate pelo que os interessa. A ampliação da implantação de unidades hospitalares aumenta a oferta de vagas num mercado com notória escassez de profissionais beneficiando somente os que nele já estão. A dicotomia entre oferta e procura é basilar, não carece explicação.

É neste intuito que diversos profissionais desta classe destilam seu ódio ao Governo. Não por ser PT ou PSDB - talvez também por ser o PT - mas qualquer sigla que ameaçasse mudar este jogo com a abertura de mercado, com a implantação cursos de medicina em universidades por todo o país e foco na melhorias do atendimento gratuito, os ataques seriam os mesmos. Não é politica partidária, é politica de classe e Dilma acerta ao enfrentar o cerne do problema ao invés de sucumbir às pressões pontuais e do lobby, algo que Obama não tem conseguido em seu país. Com as eleições se aproximando deveríamos trazer este tema ao debate e cobrar dos candidatos a manutenção desta postura visto ser a mais benéfica à maioria da população.

Por fim, antes que digam que por qualquer tipo de alienação pinto um cenário publicitário, sei que as condições que nosso sistema de saúde se encontra merece urgentemente de ampliação de investimento. Sei também que estruturas devem sim ser modernizadas e muitos dos principais hospitais do país foram sucateados com o tempo carecendo de reformas mas o salto de qualidade para o chamado “padrão FIFA”, exigência comum nas redes sociais, se dará com a mudança em definitivo do modelo vigente. E não precisamos de um novo, somente o que já temos no papel e que ainda não vigora plenamente já que abarca todas as classes e que tem foco no cidadão, não nos que se beneficiam de suas fragilidades. Precisamos somente vivenciar nas politicas publicas o que a muito preconiza o SUS e os primeiros passos estão sendo dados.