Para quem queria hospitais
padrão FIFA eis que mais um novo hospital é inaugurado no país, este na Região
dos Lagos no Rio de Janeiro. Mas problema da assistência à saúde no Brasil não
foi gerado pela Copa, é muito antigo e vai se perpetuar enquanto a sociedade
não fizer uma abordagem correta ao real problema. O modelo que se perpetua na
gestão de saúde a décadas tem diversas falhas e contribui para a proteção de
mercado pela classe médica e a inacessibilidade direta aos serviços pela
população.
O primeiro sustentáculo
para que o caos se instalasse, a defesa de classe, se deu em três partes: na
primeira, a ação incisiva dos conselhos de medicina quanto à abertura de novos
cursos, na segunda, através da manutenção dos valores abusivos nas mensalidades
dos cursos já autorizados como forma de manter a medicina prioritariamente entre
os mais abastados, na terceira, o fechamento do mercado nacional a
profissionais brasileiros ou estrangeiros formados no exterior, algo que até a
implantação o programa Mais Médicos, era obtido com os exames de revalidação de
diploma aos quais mesmo estudantes formados no Brasil não obtiveram êxito
quando testados. Estas práticas garantiram a estes profissionais um patamar
salarial em disparidade com qualquer outra classe no País e impacta diretamente
no financiamento do SUS visto que representam a maior parte do custeio de
qualquer instituição de assistência, seja publica ou privada.
O outro braço do esquema é
a exploração da necessidade do paciente versus a aplicação de uma tabela de
procedimentos financeiramente inacessível. Com um sistema público deficitário em
especialistas e poucos atendimentos, todos os que têm um poder aquisitivo acima
da faixa de pobreza são automaticamente empurrados para o cartel dos planos de
saúde. Cobrando muito e oferecendo muito pouco os planos de saúde tornaram-se a
miragem de um oásis no deserto e apesar de médicos vez ou outra reclamarem do valor
que recebem dos planos por procedimento, “chorando miséria”, a relação é
benefício mutuo. Sem que os “doutores” tenham que levantar um único dedo os planos
“passam a sacolinha” mensalmente, quer haja uso por parte dos pacientes ou não,
podendo assim arcar tranquilamente consultas e exames, mesmo com a cobrança de
20 a 100 mil reais em procedimentos cirúrgicos e diagnósticos de maior
complexidade, afortunando os médicos e sem reduzir uma vírgula nas suas margens
de lucro.
Dito isto, podemos
observar que direcionar o foco da discussão para a suposta ausência de estruturas
de saúde é a forma destes de pautar o debate pelo que os interessa. A ampliação
da implantação de unidades hospitalares aumenta a oferta de vagas num mercado
com notória escassez de profissionais beneficiando somente os que nele já estão.
A dicotomia entre oferta e procura é basilar, não carece explicação.
É neste intuito que diversos
profissionais desta classe destilam seu ódio ao Governo. Não por ser PT ou PSDB
- talvez também por ser o PT - mas qualquer sigla que ameaçasse mudar este
jogo com a abertura de mercado, com a implantação cursos de medicina em
universidades por todo o país e foco na melhorias do atendimento gratuito, os
ataques seriam os mesmos. Não é politica partidária, é politica de classe e
Dilma acerta ao enfrentar o cerne do problema ao invés de sucumbir às pressões pontuais
e do lobby, algo que Obama não tem conseguido em seu país. Com as eleições se
aproximando deveríamos trazer este tema ao debate e cobrar dos candidatos a
manutenção desta postura visto ser a mais benéfica à maioria da população.
Por fim, antes que digam que por qualquer tipo de alienação pinto um
cenário publicitário, sei que as condições que nosso sistema de saúde se
encontra merece urgentemente de ampliação de investimento. Sei também que estruturas
devem sim ser modernizadas e muitos dos principais hospitais do país foram
sucateados com o tempo carecendo de reformas mas o salto de qualidade para o
chamado “padrão FIFA”, exigência comum nas redes sociais, se dará com a mudança
em definitivo do modelo vigente. E não precisamos de um novo, somente o que já
temos no papel e que ainda não vigora plenamente já que abarca todas as classes
e que tem foco no cidadão, não nos que se beneficiam de suas fragilidades.
Precisamos somente vivenciar nas politicas publicas o que a muito preconiza o
SUS e os primeiros passos estão sendo dados.